Poesia – Arnaldo Xavier

Oriki de Xangô ~ by Júlia

subsenhor               Sol lhes sombras      ferramentas de esculpir
escuridão   paradoxal luz       lua bala prateada nó coração da noite
O horizontal jamais se deitará com o vertical        Porque do animal
singularíssimo que és    não sairás

[ in Lud-Lud, Casa Pyndahýba Editora, São Paulo, 1998 ]

Poesia – Aristides Klafke

Nobody (Polaroid) ~ Andrea Tonellotto

22

Se de poesia um dia padeci
(morrer por ela eu era capaz)
é porque em mim
ela, excelsa, acesa, excitava
era vício tenaz
Vírus vital que fazia a cabeça

Queimava ruidosa por dentro
Florescia na pele
Palpitava nos olhos
Comprazia a volúpia
Esporeava os sentidos

Mas um dia virou cinza
Vertigem, claridade devastada
Desapareceu do mapa
Tomou chá de sumiço

Outro dia, como se do nada
Ressurgiu enxugada
Altiva e rosada
Renovada
Verve atiçada
Vasta e robusta
Me busca
Onde quer que eu me ache
E brusca
Com cara de santa
Diz que padece de mim
Que é toda minha
“Leve-me contigo! Leve-me contigo!”
Quer vir comigo
Onde quer que (eu)
Vamos

[ in Quebrada, inédito ]

Poesia – Plínio de Aguiar

Enterro ~ ilustração contida na primeira edição de “Vida e Morte Severina”,
de João Cabral de Melo Neto, editada pelo autor.

O Enterro De Pai

Os cantos dos pássaros passam.

Às quatro horas em ponto fecharam
O caixão do morto.
Os presentes acompanharam-no
Até à cova. Naturalmente.
Não houve qualquer questionamento
Porque exatamente às quatro horas em ponto
Eliminou-se a imagem do morto.

Os domingos com chuva também passam.

[ in Buraco na Meia, Rio de Janeiro, Booklink, 2009]

Poesia – Dorival Fontana

Andy Dick, oil on bord – 11×14 ~ by Chet Zar

Solidão

Pelas lágrimas
frias ou cálidas
transborda a alma.
A distância é cada vez
maior num abraço.
Mãos trêmulas
afagam cabelos,
manipulam cérebros,
manipulam membros.
Todo amor que resta
no singelo contato
de um beijo,
morre sem abrigo
sentado no banheiro.

Poesia – Marina Alexiou

Ritratto di Laura Battiferri ~ by Agnolo Bronzino, c.1555-60
Imagen enviada pela autora

O seu olhar precisa ser frio como lâmina
a cortar os ventos fragorosos da intempérie
que são os seus pensamentos.
O devaneio, objetivo.
Decisivo.
O véu que cobre este rosto sereno de marfim
adorna o céu plúmbeo de um futuro
que lhe é desconhecido,
por estar envolto em mistérios que
seus delgados dedos não desvendarão.
Seus olhos, no entanto,
descansam entre promessas, memórias e lembranças.
luminosas como a sua efígie,
a predizer o encontro com a altiva imagem saturnal…
O sorriso virá, assim que ela acordar das reflexões
e captar o momento para além
da inexistente certeza expressa em seu semblante.
Bela como sempre, ela surgirá com esperada doçura
e abordará o destino,
Com a coragem dos nobres do espírito e do tempo.