Editorial

“Omnium enim rerum principia parva sunt”
~ Cícero, in De Finibvs Bonorvm et Malorvm, Liber Qvintvs

 

Março TUDA ~ TUDA Março!

Nem só de Terças-Gordas e Quartas-Magras (ou de Cinzas!) é feito o Carnaval, festa originalmente criada pelos Gregos em agradecimento aos deuses pela fertilidade e produção do solo. Na antiguidade, o Carne Vale era marcado por grandes festas, onde se comia, bebia e buscava-se prazeres, incessantemente. O Carnaval prolongava-se por sete dias nas ruas, praças e casas da Antiga Roma, entre 17 a 23 de Dezembro. Todas as atividades e negócios eram suspensos neste período, os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que bem quisessem, e as restrições morais eram relaxadas. Hoje em dia, uma vez institucionalizado, o Carnaval acabou perdendo a graça, assim como o futebol… e embora seja apenas uma opinião, o dinheiro realmente enfastia as coisas… Mais ou menos como a história dos Javalis zarolhos de Quixeramobim caçando folhas de ipê em Georgetown, no Kentucky… Pangrama puro. Chato mesmo!

E quanto mais eu penso mais eu questiono – melhor, não questiono não, eu desafio mesmo! Que desafiar é a melhor maneira de tratar o pré-estabelecido, simplesmente por ter sido estabelecido anteriormente e assim não aceitar outras possibilidades. Os receiosos do novo, independentemente do novo ser novo ou velho, mas apenas por ser outro. Assim, por puro acaso de não sei o quê, sem pensar, sem mesmo lembrar da data, passei um carnaval sem carnavalias, sem alegrias induzidas – embora tenha tomado meu vinhozinho – ou situações pré-fabricadas. E é claro que comi carne na Quarta de Cinzas!

Brazilian? Oh, yeah… Carnaval, football, Pelé, women… é, pode ser, mas tem prostituição infantil também, problemão com drogas realmente destrutivas como crack, óxi e crocodil, tem a burguesia babaca que sustenta a hipocrisia na base do fuminho e do pó, tem a coisificação do corpo, a vulgarização da mulher (e a aceitação dela em ser vulgarizada, o que acaba provocando um machismo oportunista), a corrupção institucionalizada, a miséria tolerada, a gritante diferença social (que por ser assumida e aceita desencadeia a exploração do achatado), a ficção macro-econômica, a ilusão micro-econômica, a cultura – praticamente nula – do povo, não só por culpa do povo, mas também e principalmente por pura conveniência do andar de cima, assim como convenientemente muitas coisas não são tratadas seriamente no país do futebol, do carnaval, das praias maravilhosas e das mulheres gostosas… não convêm, entende?!?

É isso aí companheiros & companheiras, igualmente engajados nessa suja e fedorenta LabUTA do dia a dia, que quanto mais suja e fedorenta se torna, mais vontade dá de meter a mão na sujeira e limpar a merda toda! Para quê, ainda é uma pergunta a ser respondida, mas se formos esperar respostas acabamos como todos os outros, de mãos nos bolsos. Por isso, camaradinha, o negócio é meter a mão na merda mesmo, sem nojo nem pudor… pode até usar luvinha se quiser, e pregadorzinho no nariz, para evitar a náusea, mas o importante mesmo é meter a mão na massa e tirar a merda da frente… E haja merda!

Em pleno fim-de-semana de São Patrício, padroeiro da Irlanda, na verdade Patrício é o padroeiro da bebedeira institucionalizada, uma das poucas hiprocisias irlandesas. Provavelmente o mais amplamente comemorado dia de santo no mundo, poucos sabem ou lembram o que oPaddy Day celebra, e o que acaba acontecendo é um monte de gente vestida em trajes verdes, saindo as ruas em uma longa caminhada festiva… é a chamada St. Patrick’s Parade Dia de São Patrício é provavelmente o mais amplamente comemorado dia de santos no mundo.

QG TUDA Março

Pela desclassificação na Copa, pela descarnavalização do carnaval, pelas praias despoluídas, e em suporte à dita “mulher feia” (já que beleza é relativa e também institucionalizada). Se há uma maneira mais fácil de se fazer algo, faça… contanto que não prejudique ninguém, não vá contra os seus princípios, não limite sua criatividade, e não comprometa a qualidade do resultado. E TUDA acaba sempre tomando o caminho mais longo em favor ao resultado esperado…

Asyno Eduardo Miranda,
o (auto-proclamado) editor
deste porto qvasjsseguro da jlha do Eire
oje, dezº qvjmº dia do terçº mez
d este Anno Domini de MMXIV

Dívida Interna

Photo by Shutterstock

Editor
Eduardo Miranda

Capa
José Geraldo de Barros Martins

Blogagem
Eduardo Miranda

Revisão
dos autores

Participam desta edição:
Aaron Fulcher, Agnolo Bronzino, André Martins de Barros, Andrea Tonellotto, Aristides Klafke, Arnaldo Xavier, Barcelos na Net, Celia de Fréine, Cesar Cruz, Chet Zar, Conor Walton, Dorival Fontana, Eduardo Miranda, Elvis Kleber & Ítalo Cajueiro, Ferreira Gullar, Gabriel Fernandes, Graeme Maclean, João Cabral de Melo Neto, José Carlos de Souza, José Geraldo de Barros Martins, José Miranda Filho, Júlia (Feito à Mão), Léon Augustin Lhermitte, Marina Alexiou, Miguel Falcão, Plínio de Aguiar, Rafael Moralez, Rene Magritte, Ronald Augusto, Shutterstock e Stephen Mackey.

E-mail
tuda.papel.eletronico@gmail.com

Tradução – Eduardo Miranda

Léon Augustin Lhermitte ~ La Fenaison à la ferme de Rue Chailly
Célia de Freiné é uma poeta, dramaturga e roteirista irlandesa que escreve em Irlandês e em Inglês. Ela nasceu em Newtownards, County Down e se mudou para Dublin ainda criança, mas manteve fortes ligações com a Irlanda do Norte. Célia passou a maior parte de seus verões com sua família em Donaghadee. Ela agora divide seu tempo entre Dublin e Connemara.

Línguamãe
por Celia de Fréine

Quando a língua da montanha
foi proscrita, os homens
foram agrupados e aferroados.

Além de suas tarefas normais,
as mulheres
agora tinham que salvar a colheita.

Máthairtheanga
ag Celia de Fréine

An lá ar coscadh teanga an tsléibhe
cluicheadh fir na háite
is ceanglaíodh laincisí orthu.

I dteannta a ngnáthchúraimí
fágadh faoi na mná
an fómhar a bhaint.

[ in The New Irish Poets, edited by Selina Guinness, Bloodaxe Books Ltd, UK, 2004 ]

Foreign Words – João Cabral de Melo Neto

Ilustração extraída do desenho animado “Morte e Vida Severina”, versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartuinista Miguel Falcão (assista aqui).

Death & Life Severina
by Eduardo Miranda
extracted from the book Morte e Vida Severina, 1966

This grave where you are,
measured by strife
is the smallest share
you’ve got in life.

Neither wide nor profound,
good size, but still bridled,
this is the piece of ground
to which you are entitled.

It’s not a big grave,
but measured and spared,
the land which you craved
one day to see shared.

It is a big grave
for your poor soul
and you’ll be more safe
then you were in the world.

Vida e Morte Severina
extraído de Morte e Vida Severina

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.

Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.